É possível correr uma maratona sem carboidrato praticando low carb?

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Quem me acompanha no Instagram (@andreburgos) sabe que pratico uma alimentação low carb high fat, ou seja, pouco carboidrato e muita gordura. Diariamente compartilho minhas refeições e fotos de treinos e provas. Quando as pessoas percebem que corro longas distâncias, quase não consumo carboidrato e como gordura sem medo logo me enchem de perguntas. É claro. Há décadas aprendemos que nosso corpo precisa de carboidrato e precisamos evitar o consumo de gordura. Mas vocês já pesquisaram o que a ciência diz sobre isso? Ou alguém lembra como nossa espécie (o ser humano) evoluiu por mais de 2,5 milhões de anos?

Bem, por mais de 2,5 milhões de anos, o ser humano viveu da caça e coleta. Coletava legumes, folhas, vegetais frutas da estação e comia carne de caça. Na época do paleolítico, não existia a abundância de comida que temos hoje, então é claro que não se comia três vezes ao dia, muito menos a cada três horas. Após dias sem comer, nossos antepassados saíam para caçar e se não tivessem energia para tal, certamente nossa espécie estaria extinta. Concorda? E quando caçavam, a carne gorda era a mais consumida e a magra se dava aos cães. E por que dizem que a gordura faz mal?

Bem, na ciência não existe evidência sobre isso. É verdade. As pesquisas que existem mostram que quem consome gordura tem uma melhor saúde, por exemplo. E todas as pesquisas comparando uma alimentação de baixa gordura versus baixo carboidrato mostram que é muito mais saudável restringir o carboidrato e não a gordura. Já falei um pouco sobre isso aqui => Paleo, low carb e evidências.

Mas para praticarmos atividade física a gente não precisa comer carboidrato? Bem, se isso fosse verdade a gente não existiria hoje. Nossos antepassados tinham uma alimentação com baixo carboidrato, chegavam a passar dias sem se alimentar, mas ainda tinham energia para caçar, fugir de predadores ou apenas andar, já que eram nômades. Eles não eram nenhum pouco sedentários.

Descobri a paleo/low carb em outubro de 2015, pesquisei bastante e, em dezembro, decidi tentar. Minha adaptação foi muito rápida. Em janeiro deste ano, corri a maratona da Disney com pouquísismo carboidrato e me senti ótimo. Em março, corri uma ultramaratona de 50 km com pouquíssimo carboidrato e me senti muito bem, principalmente na recuperação pós-prova. Foi incrível. Em abril, corri uma maratona também com pouco carboidrado e mais uma vez me senti muito bem.

Minha prova alvo em 2016 era a Maratona de Porto Alegre. Tinha o objetivo de conquistar o índice para a maratona de Boston e, para isso, precisava terminar a prova abaixo de 3h10min.

Durante meses continuei com a alimentação low carb high fat e treinando regularmente. Cheguei a fazer treinos longos de 22 km e 28 km sem nenhum carboidrato, consumia apenas água e me sentia muito bem. Não tem segredo. Sem carboidrato nosso corpo utiliza a melhor fonte de energia que possuímos, a gordura.

Geralmente, na semana que antecede uma maratona os corredores consomem mais carboidrato. Hoje eu me pergunto: por que? Já li em algum lugar uma pesquisa mostrando que pessoas que consomem mais carboidratos do que estão acostumadas nos últimos dois dias que antecedem a prova têm uma queda na performance.

Bem… eu ainda estava um pouco inseguro de como seria a maratona pra mim. Não sabia se consumia algum tipo de carboidrato ou não. Decidi seguir o que estava acostumado. Afinal, não teria motivo pra fazer diferente. Minhas refeições continuaram deliciosas e low carb high fat.

No dia da maratona, consumi apenas ovos, queijo e café com óleo de coco no hotel e, minutos antes da prova, comi um pedaço de chocolate 70%.

Apesar de ter levado alguns sachês de mel, não senti necessidade de consumi-los. Me sentia ótimo no frio de quase 0ºC. Nenhum cansaço e bastante disposição.

Passou o km 10, 15, 20, 25 e o meu ritmo continuava forte e constante. E até ali eu só havia consumido um pouco de água apenas quando senti sede.

Perto do km 30 comecei a sentir um pouco de enjoo. Normal. Eu estava num ritmo forte há horas. Quando isso acontece, eu bebo água e logo passa. No km 30, avistei um ponto de hidratação. Quando me aproximei, percebi que na verdade era um ponto de isotônico. Lamentei, mas para evitar o enjoo eu precisava beber algo. Peguei um copo, dei um gole e descartei.

De lá até o final, peguei água em todos os pontos, dava um gole e descartava. Acho que passei por outro ponto de isotônico no km 37/38 e, novamente, peguei um copo, dei um gole e descartei. Esses dois goles foram as únicas coisas com carboidrato que consumi durante as 3:04:42 que precisei para fazer o meu melhor tempo em maratonas e conquistar o índice para a maratona de Boston.

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Terminai bem. Cansado, claro. Me sentia bem, sem fome alguma, mas ainda com sede. Bebi água e chá, afinal o frio estava enorme. :)

Ao final da prova, percebi que nosso corpo é incrível! Inteligente o suficiente para usar nossa reserva de energia (gordura) enquanto for preciso e houver estoque suficiente. Nosso corpo não seria tão burro para usar apenas o glicogênio e deixar nossos músculos fracos quando precisamos de energia. Ele fará isso apenas se o ensinarmos a fazê-lo. E o mundo vem ensinando isso há poucas décadas, mesmo sabendo que evoluímos milhões de anos de outra maneira.

Agora entendo um pouco mais meu corpo. Após correr uma maratona com quase zero carboidrato e me sentir ótimo durante toda a prova, deveria fazer outra pergunta: por que dizem que precisamos consumir carboidrato para correr uma maratona?

Abaixo mostro como foram minhas refeições antes da maratona:

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Um cafezinho sem adoçar + um quadradinho (cerca de 1/5) de chocolate 70% no aeroporto de Guarulhos-SP. Três dias antes da prova.
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Almoço no aeroporto de Guarulhos. Três dias antes da prova
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Jantar no Ossip. Uma deliciosa salada. Três dias antes da prova.

 

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Café da manhã. Café puro + ovos + queijo prato + queijo branco + presunto. Dois dias antes da prova.
Almoço 2 dias antes da prova. Salada + verduras + legumes + queijo ralado + azeite  + carne.
Almoço dois dias antes da prova: salada + verduras + legumes + queijo ralado + azeite + carne.

 

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Jantar dois dias antes da prova: sopa de cebola + azeite + pimenta + café puro sem adoçar.
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Café da manhã na véspera da prova: ovos + queijo muçarela + queijo branco + cream cheese + café com nata.
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Almoço na véspera da prova: uma taça de vinho tinto + picanha + legumes + azeite.
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Jantar na véspera da rova: alface + tomate + cenoura + brocolis + rúcula + ovos de codorna + palmito + frango frito + azeite.

No dia da prova, consumi algo parecido aos outros cafés da manhã: ovos mexidos com queijo e café com óleo de coco.

A prova foi excelente. Fiz meu melhor tempo (3:04:42) e ainda consegui o índice para a mais tradicional maratona do mundo, a de Boston.

:)

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